ENADE: o Serviço Social em números. Uma breve reflexão.

Recebi esta "reflexão" por email, já repassei aos meus contatos ligados a área do Serviço Social e não poderia deixar de postá-la aqui no Spaces…
 

ENADE: o Serviço Social em números. Uma breve reflexão.

Cristiano Costa de Carvalho, assistente social, pós graduado em Serviço Social pela UnB. 

Na tarde do dia 19 de novembro, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP, por meio de sua assessoria de imprensa divulgou números de graduandos que estarão realizando no próximo final de semana (21/11), o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes – ENADE referente ao ano de 2010.


Números surpreendentes que abrangem o universo de 650.066 (seiscentos e cinqüenta mil e sessenta e seis) estudantes de graduação da área da saúde que realizará o ENADE no próximo domingo.


Ainda, segundo informações da assessoria de comunicação do INEP, desses acadêmicos, 261.745 são ingressantes e 161.151 são concluintes. Outros 227.170 inscritos são estudantes selecionados para edições anteriores do ENADE.

Os cursos de Enfermagem e Serviço Social ganham destaque, acupando o primeiro e segundo lugar com número de acadêmicos inscritos para realização da referida prova, com 86.856 e 65.359 respectivamente. Veja abaixo quadro elaborado a partir dos dados divulgados pelo INEP:


Agronomia

18.824

Biomedicina

12.781

Educação Física

33.056

Enfermagem

86.856

Farmácia

35.471

Fisioterapia

38.303

Fonoaudiologia

3.496

Medicina

30.004

Medicina Veterinária

16.684

Nutrição

24.042

Odontologia

20.099

Serviço Social

65.359

Tecnologia em Agroindústria

387

Tecnologia em Agronegócio

2.311

Tecnologia em Gestão Ambiental

18.506

Tecnologia em Gestão Hospitalar

2.975

Tecnologia em Radiologia

5.872

Terapia Ocupacional

2.054

Zootecnia

5.816

 

Acredito que a reflexão sobre estes dados são bastante pertinentes para aqueles que buscam mediações para consolidação e construção de estratégias em torno da efetivação do projeto ético político profissional na sociedade brasileira, pois nunca antes na História do Serviço Social brasileiro vimos um número tão crescente de profissionais assistentes sociais em formação, caracterizando um verdadeiro boom de  novos profissionais no início deste novo milênio.

Sabemos da necessidade deste profissional no Brasil, principalmente no contexto sociopolítico, onde as expressões da questão social e a dimensão ética ganham contornos complexos e desafiantes.

Também sabemos das relações contraditórias postas na atualidade em pleno momento em busca de dinamização do capital, a distância entre ricos e pobres, e o crescente número de programas sociais focalizados na pobreza extrema, para redução do índice desta sem preocupação com as mediações necessárias.

Sobre o expressivo avanço do número de assistentes sociais (em formação) faz necessário retomar as reflexões já tecidas pela Profª. Marilda Vilela Iamamoto, na oportunidade do XIII CBAS que aconteceu neste ano em Brasília, em que faz um amplo balanço das experiências inovadoras dos assistentes sociais brasileiros, no entanto, ressalta que na atual conjuntura, há um processo de massificação na formação universitária (dado o aumento acelerado de cursos, especialmente à distância, contribuindo para a criação de um “exército assistencial de reserva”, a ser chamado ao voluntariado diante da criminalização da pobreza).

Iamamoto ressalta que este processo vem se consolidando de forma graduada, massiva e decorrente da expansão acelerada da educação superior como “negócio” do capital, com perda crescente de qualidade e com “graves implicações na vida dos segmentos de classe atendidos pelo assistente social e na defesa de seus direitos”.

Para Iamamoto, o assistente social precisa compreender essa realidade para que proposições sejam feitas. O projeto profissional do Serviço Social lhe oferece a possibilidade de projetar com liberdade suas intervenções, o que o diferencia de outros profissionais.


Ainda pondera que os assistentes sociais também sofrem a precarização do trabalho (desemprego, trabalhos temporários etc), mas que é urgente decifrar os espaços ocupacionais do Serviço Social para resignificá-los.


Nesses espaços, se dão as competências do profissional, a visibilidade do que ocorre na cena pública e a garantia do acesso aos direitos sociais. Iamamoto acentua três tendências atuais que caracterizam desafios de superação (contradições) neste momento para o trabalho do assistente social:


  responsabilização da família pelo nível de pobreza (individualização) – os assistentes sociais muitas vezes são chamados a afirmar isso, ao lidarem com critérios de condicionalidade para acesso e permanência nas Políticas Públicas, sobretudo àquelas que se referem à transferência de renda;

  moralização da questão social – escamoteia a realidade e subjetiva as necessidades (voluntarismo);

  assistencialização da pobreza estrutural junto as classes;

Estas reflexões implicam uma análise crítica entorno dos dados apresentados pelo INEP, cabe lembrar que se trata apenas uma pequena “amostra” de 65.359 acadêmicos de Serviço Social que estarão realizando a prova do ENADE neste domingo.

Nos cabe perguntar: qual será o número real de acadêmicos de Serviço Social Brasil? O que este ‘boom’ pode impactar na defesa dos princípios e no projeto ético político da profissão junto ao nosso compromisso com a sociedade brasileira? Como esta sendo a qualidade do ensino ofertado nas instituições de ensino superior?

Sabemos que diante as insuficiências do ENADE, estas repostas não possibilitará conhecer a significação histórica do processo de formação profissional e dos desafios que temos no cotidiano, sabemos que nos compete fazer as mediações com a complexidade universal constitutiva das relações sociais, no sentido de compreender o fenômeno em sua essência, ou seja, em seus condicionamentos estruturais, recompondo-os em seus aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais.


Neste contexto, endosso a premissa defendida pelas nossas entidades representativas, a saber, o Conselho Federal de Serviço Social – CFESS, no âmbito do exercício profissional; da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS, no âmbito de fundamentação da formação; e da Executiva Nacional dos Estudantes de Serviço Social – ENESSO, para formação de novos sujeitos engajados nestas perspectivas. 


Ao exercício profissional temos a responsabilidade de aguçar a crítica aos fundamentos em que se baseiam a atual conjuntura e as políticas públicas para preservar a autonomia profissional, fazer aproximações sucessivas desta, atingir um modo cada vez mais claro e verdadeiro de compreensão do real em sua totalidade, sob uma perspectiva crítica e transformadora, que situa o indivíduo social enquanto sujeito histórico, que faz história, mas não nas condições por ele desejadas. Do contrário, corre-se o risco de se desgastar o vínculo com os movimentos sociais, com a possibilidade de transformação social e tudo se transformar em um enorme  vazio.

 

Cristiano Costa de Carvalho
Tel.:(31) 8405 2054
Msn.:cristiano_18_2005@hotmail.com

"Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade." Raul

"Sou militante, estou vivo, sinto nas
consciências viris dos que estão comigo
pulsar a atividade da cidade futura que
estamos a construir. (…) Vivo, sou militante.
Por isso odeio quem não toma partido, odeio
os indiferentes." (Gramsci, 1917)
 
"Suponhamos que o homem é homem e que é humana a sua relação com o mundo.
Então o amor só com amor se poderá permutar, a confiança com a confiança,
etc. Se queremos apreciar a arte temos de ser pessoas artisticamente cultivadas; se queremos
influenciar outras pessoas importa que dejamos pessoas com efeito
verdadeiramente estimulante e encorajador sobre os outros. Cada uma das
nossas relações ao homem e à natureza deverá ser uma expressão específica,
que corresponda ao objetivo de nossa vontade, da nossa vida real
individual…" (Karl Marx – Manuscritos de Paris – III Manuscrito).

*A imagem ilustrativa deste post retirei do blogspot https://maryalcantaras.files.wordpress.com/2010/11/08-12-09.jpg?w=300 através de pesquisa na internet.

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Sobre maryalcantaras

Sou uma pessoa calma e bastante tímida. Não costumo sair muito e por isso vivo na internet. Sou bem eclética em questões referentes a preferências... adoro ler, ouvir música, dançar e tomar umas biritas de vez em quando... mas o que eu adoro mesmo é DORMIR e BEIJAR!!! Meu hobbie é DORMIR. Me interesso por coisas variadas, gosto tanto de coisas simples quanto de coisas rebuscadas. "O Amor conquista-se com Amor e não impondo regras." (A.D.) E talvez tenha de praticar um pouco mais a minha tolerância...
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