Um Refúgio no Passado

Mas uma vez termino de assistir um filme com lágrimas nos olhos… uma pérola escondida…
 
Alguns segredos do passado podem tornar o presente um pesadelo
 
Um Refúgio no Passado
 
SINOPSE

Após a morte de seu pai, o renomado fotógrafo de guerra Paul Prior volta para casa da Europa depois de 17 anos afastado. Em uma pequena cidade da Nova Zelândia, ele reencontra seu irmão Andrew, um homem religioso e conservador, e começa a lecionar jornalismo na escola local. Ele também se torna amigo e um ídolo para Célia, uma jovem ávida por descobrir a vida. Quando Célia, que é filha de uma antiga namorada, desaparece no inverno seguinte, Paul é o primeiro a ser questionado a explicar seu desaparecimento.

 
Crítica
 
Texto por Helena Novais 

Filmado na Nova Zelândia em 2004 e lançado no Brasil pela Focus Filmes, em fins de 2006, este é o primeiro longa do diretor Brad McGann. É também o primeiro em que o inglês Matthew Macfadyen (de Orgulho e Preconceito) aparece como protagonista. Se isso soou para você como um indício de filme feito por iniciantes e por isso fraco, tire logo essa idéia da cabeça. Em meio a tantos lançamentos que não acrescentam nada e que por vezes são horríveis, este é uma agradável surpresa que não pode cair no esquecimento.

Matthew é Paul Prior, fotógrafo, jornalista e correspondente de guerra, que retorna ao convívio familiar e à sua cidade natal após 17 anos. É ocasião do falecimento de seu pai, porém, o reencontro entre ele e o irmão, Andrew (Colin Moy), deixa claro que existe um passado mal resolvido. Ao decidir permanecer algum tempo na cidade e cuidar da parte que lhe cabe do espólio do pai, Paul reencontra antigos conhecidos e relembra dias passados. Faz amizade com a adolescente Celia (Emily Barclay) e com ela desenvolve uma relação de companheirismo. Com o desaparecimento de Célia, a polícia interroga Paul e o toma por suspeito.

Aqui está um exemplo da importância de um bom roteiro. A narrativa prende a atenção e, ao entrelaçar flashbacks a planos presentes, brinca com percepções intrigando e sugerindo conclusões, ao mesmo tempo em que conduz a um desfecho surpreendente. É verdade que a história em si (baseada no livro In My Father’s Den de Maurice Gee) já é bastante interessante, mas isso não ofusca o mérito do roteiro que aos poucos desenrola uma trama trágica.

Embora seja um filme sério e denso, o clima não chega a ser predominantemente pesado. É existencialista, por vezes poético e trágico, mas com tons acentuados principalmente pela trilha sonora calcada em Horses de Patti Smith e, também por isso, denuncia sua propensão a cult movie. Após mais de 30 anos de lançamento, Horses continua atual e não perdeu a capacidade de falar a corações e mentes. É emocionante e um clássico! Ainda tomam parte na trilha sonora gravações de Kiri Te Kanawa, Turin Brakes e Mazzy Star.

Outro ponto alto é a caracterização dos personagens, todos interessantes e bem interpretados. Fundamental a interpretação de Emily Barclay, que empresta brilho especial à batida temática das buscas próprias da adolescência e da sede por algo mais além da superficialidade cotidiana. Celia não é mais uma mocinha consumista e fútil, mas uma jovem sensível, fascinada pela beleza dos livros e pelas possibilidades literárias. Já Macfadyen dá vida a um Paul marcado por acontecimentos do passado e pelos horrores que presenciou ao documentar ocorrências de guerra. Ele é uma personalidade independente e solitária. Confrontado com dificuldades, ele se droga, o que denuncia seu desespero pouco evidente. Até seu trabalho é uma forma de fuga, de não encarar a si mesmo, de negar-se a ser cúmplice da realidade como ela é ou de aceitar determinismos. Sua inquietude e inconformismo são justamente o que o torna tão interessante. Ele passa perto de ser um personagem detestável, mas o ator dá dignidade ao personagem.

Macfadyen registrou uma ótima atuação, mas que poderia até ser melhor, considerando o talento que demonstrou no ano seguinte, ao interpretar Mr. Darcy em Orgulho e Preconceito. De qualquer forma, seu personagem é um presente para um ator que busca oportunidades de demonstrar sua capacidade e conquistar reconhecimento (seus últimos trabalhos são Middletown, de 2006, e Death at a Funeral, de 2007, ainda inéditos no Brasil). Destaque para a seqüência em que Paul confronta o irmão e depois aparece abrindo o livro Owls Do Cry, de Janet Frame (uma homenagem à escritora neozelandesa falecida em janeiro de 2004), esses justamente os momentos mais pungentes do filme. 

Em essência, Um Refúgio no Passado faz pensar nos erros que todos nós estamos sujeitos a cometer, por imaturidade ou por impulso em momentos de fraqueza, e em como esses erros, que deveriam terminar em si mesmos ou serem corrigidos, podem se multiplicar até destruírem relações humanas, vidas e famílias. O ser humano é frágil, facilmente enganável pelas aparências e por si mesmo. Se não dominar instintos e emoções se torna vítima das circunstâncias. A falta de comunicação, a inadequação dela e as omissões só contribuem para o pior. Porém, antes de tudo, seres humanos são universos em colisão que, individualmente ou em conjunto, influem no presente e constróem o futuro, seja ele qual for e em que tempo for.


*A imagem ilustrativa deste post retirei do site http://www.sebodomessias.com.br/loja/imagens/produtos/produtos/64974_666.jpg através de pesquisa na internet.
*A crítica do filme "Um Refúgio no Passado" retirei do site http://www.delfos.jor.br/conteudos/index_interna.php?id=1692&id_secao=1&id_subsecao=2 através de pesquisa na internet.

Sobre maryalcantaras

Sou uma pessoa calma e bastante tímida. Não costumo sair muito e por isso vivo na internet. Sou bem eclética em questões referentes a preferências... adoro ler, ouvir música, dançar e tomar umas biritas de vez em quando... mas o que eu adoro mesmo é DORMIR e BEIJAR!!! Meu hobbie é DORMIR. Me interesso por coisas variadas, gosto tanto de coisas simples quanto de coisas rebuscadas. "O Amor conquista-se com Amor e não impondo regras." (A.D.) E talvez tenha de praticar um pouco mais a minha tolerância...
Esse post foi publicado em Cinefilia/Cinéfilo e marcado , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Um Refúgio no Passado

  1. Noiva disse:

    É um filme muito interessante que reforça que existe bom cinema fora dos EUA para quem não conhece. Boa história, muito bem desenvolvida e com bons atores. A fotografia e as paisagens são muito bonitas. Vale a pena assistir.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s