A Troca

Acabo de assistir este filme e as lágrimas estão escorrendo em minha face até agora… Poucos filmes baseados em fatos reais me deixaram tão de boca aberta quanto este. Mesmo que eles tivessem fantasiado 90% dele, se um décimo daquilo realmente aconteceu, já é suficente para figurar no hall das histórias extraordinárias… portanto, a luta de um único cidadão pode sim fazer a diferença…
 

O que acontece quando você perde um filho e lhe devolvem um outro?

A Troca

 
 
Sinopse
Los Angeles, março de 1928. Christine Collins (Angelina Jolie), uma mãe solteira, se despede de Walter (Gattlin Griffith), seu filho de 9 anos, e parte rumo ao trabalho. Ao retornar descobre que Walter desapareceu, o que faz com que inicie uma busca exaustiva. Cinco meses depois a polícia traz uma criança, dizendo ser Walter. Atordoada pela emoção da situação, além da presença de policiais e jornalistas que desejam tirar proveito da repercussão do caso, Christine aceita a criança. Porém, no íntimo, ela sabe que ele não é Walter e, com isso, pressiona as autoridades para que continuem as buscas por ele.
 
Crítica
 
Clint Eastwood volta ao tema da abdução de menores em seu filme recente mais classicista
 
Marcelo Hessel

Imagino que seja um júbilo para um cineasta classicista poder dirigir um filme ambientado decadas atrás. Mais exatamente, ambientado na época em que Clint Eastwood nasceu.

A Troca (Changeling, 2008) se baseia em um caso real ocorrido entre 1928 e 1930. Certo sábado, em Los Angeles, Christine Collins (Angelina Jolie) saiu para trabalhar e deixou seu filho Walter em casa. Na volta não o encontrou. Os dois travellings que antes mostravam o menino de longe, um na porta da escola e outro na janela de casa, enquanto a câmera se afastava sob o ponto de vista dos olhos da mãe, já prenunciavam o pior. A imagem de Walter desaparecia aos poucos para não mais voltar.

O caso ficou famoso na realidade porque o departamento de polícia de L.A. encontrou, diz, um menino homônimo ao desaparecido e presumiu que era o filho de Christine. Daí a troca do título: para ficar bem diante da imprensa, a criticada polícia da cidade se apressou em jogar o "filho" no colo da mãe. Christine, evidentemente, desde o primeiro momento apontou que aquele não era o verdadeiro Walter.

No filme, quando o oficial responde para ela "take him home on a trial basis" (algo como "leva pra casa pra experimentar"), você vê que a coisa começa a degringolar.

O parentesco imediato é com Sobre Meninos e Lobos. Ambos pegam um drama de rapto infantil para discutir transmissão de culpa. E ambos têm criação classicista à moda Eastwood – poucas tomadas, instruções práticas e econômicas aos atores, filmagens que acabam sempre antes do combinado, o que acaba rendendo momentos desiguais de performance do elenco. Em A Troca, porém, pelo próprio momento histórico, Eastwood parece realizar seu filme mais clássico em termos formais – com direito a som quebrado entre planos para dinamizar a exposição.

E eu nunca tinha atinado para o fato de que a obsessão de Eastwood pelo chiaroscuro é um resquício do filme noir dos anos 40 (que por sua vez é uma adaptação do expressionismo alemão dos anos 20). Pegue, por exemplo, a cena anti-naturalista do interrogatório do menino, com meio rosto iluminado pela tempestade, ou o ângulo com que Eastwood filma Jolie de chapéu para encobrir seus olhos. Aquela forma de esconder semblantes (no caso de Jolie, restam-lhe só os lábios para contar história) é noir puro!

Que se faça um parênteses para comentar a construção da personagem. É uma atuação cheia de cacoetes, a de Jolie, como sempre, mas são tiques propositais. Estamos falando de uma personagem bem feminina – sempre educada ao telefone e de modos leves, pela forma como toca o rosto no choro ou mesmo como pede debilmente para um bonde na rua parar – que de repente se descobre num mundo de homens. O vermelho do batom dela, contrastando com a falta de cor dos paletós masculinos, é de uma agressividade febril, como se fossem alienígenas uns aos outros – o que acentua a essência kafkiana da premissa.

Advogando por princípios

Como naquela época não havia Guerra do Iraque, hoje sempre que lhe perguntam se A Troca critica o bushismo Eastwood diz que sempre houve e ainda há corrupção. Mas é um filme nos anos 20, diz ele, e ponto final. Para quem olha de fora, porém, é legítimo enxergar ressonância com a intransigência do governo Bush. A maneira falsamente idiota como a polícia de Los Angeles acredita na sua própria mentira equivale à de quem botou tanques no deserto atrás de armas de destruição em massa.

Mas não tomemos esse caminho – mesmo porque filmes são produtos de seu tempo, há política em tudo e, afinal, essa leitura é apenas a mais imediata. Talvez seja mais caro a Eastwood vermos A Troca como uma reafirmação de valores que hoje estão em desuso na sua América. É sintomático, por exemplo, que a única personagem do filme disposta a socar alguém para vingar Christine seja a prostituta (que já está à margem da lei mesmo). Na sua busca, Christine se atém às vias legais até o final porque crê nas fundações do sistema.

E se ela, como Eastwood, acredita que a corrupção não está nas instituições, mas naqueles que as compõem, nada mais natural que dedicar todo o terço final do filme a expurgar essa corrupção. O texto do roteirista J. Michael Straczynski (conhecido dos fãs de quadrinhos pela sua passagem conturbada pelo Homem-Aranha) é implacável nesse sentido. Não há recompensa fácil, não há milagres à Frank Capra. A certa altura um personagem de má índole confessa ser um fã de Christine porque ela ousou desafiar o sistema. Mas, como Christine repete à exaustão, ela não quis desafiar nada, quis apenas o filho de volta.

Falando assim, parece um moto simplório, mas é uma questão profunda de princípio. E o cinema clássico é isso aí, em essência: motos simplórios, questões de princípio.

Frases em Inglês

(from trailer)
Christine Collins : The boy they brought back is not my son.

(last lines)
Christine Collins : Three boys tried to escape that night, and if one boy got away then maybe one or both of the other two escaped too. Maybe he’s out there somewhere, afraid to tell the truth, afraid of what will happen to him or to me. But one thing I know is that boy gave me something I didn’t have before.
Detective Lester Ybarra : What’s that?
Christine Collins : Hope.

Reporter at Precinct : (as Northcott is being taken into custody) How did you avoid capture?
Gordon Northcott : Well I didn’t did I?

Christine Collins : He’s not my son.
Capt. J.J. Jones : Mrs. Collins…
Christine Collins : No, I don’t know why he’s saying that he is, but he’s not Walter and there’s been a mistake.
Capt. J.J. Jones : I thought we agreed to give him time to adjust.
Christine Collins : He’s three inches shorter; I measured him on the chart.
Capt. J.J. Jones : Well, maybe your measurements are off. Look, I’m sure there’s a reasonable explanation for all of this.
Christine Collins : He’s circumcised and Walter isn’t.
Capt. J.J. Jones : Mrs. Collins, your son was missing for five months, for at least part of that time in the company of an unidentified drifter. Who knows what such a disturbed individual might have done. He could have had him circumcised. He could have…
Christine Collins : …made him shorter?

Christine Collins : Fuck you and the horse you came in on.

Christine Collins : I used to tell Walter, "Never start a fight… but always finish it." I didn’t start this fight… but by God, I’m going to finish it.

Arthur Hutchins : ‘Night, mommy.
Christine Collins : (yelling) Stop calling me that! I’m not your mother! I want my son back! Damn you!

Trailer Oficial – A Troca (Changeling)

 


*A imagem ilustrativa deste post retirei do site http://cinemacomrapadura.com.br/filmes/poster/2731-2009-01-08-19:13:29_2.jpg através de pesquisa na internet.
*A crítica do filme "A Troca" retirei do site http://www.omelete.com.br/cinema/critica-a-troca/ através de pesquisa na internet.
*As frases em inglês do filme retirei do site http://epipoca.uol.com.br/filmes_frases.php?idf=19990 através de pesquisa na internet.
*O trailer do filme "A Troca" retirei do site http://www.youtube.com/watch?v=xwa2ncStjNw através de pesquisa na internet.

Sobre maryalcantaras

Sou uma pessoa calma e bastante tímida. Não costumo sair muito e por isso vivo na internet. Sou bem eclética em questões referentes a preferências... adoro ler, ouvir música, dançar e tomar umas biritas de vez em quando... mas o que eu adoro mesmo é DORMIR e BEIJAR!!! Meu hobbie é DORMIR. Me interesso por coisas variadas, gosto tanto de coisas simples quanto de coisas rebuscadas. "O Amor conquista-se com Amor e não impondo regras." (A.D.) E talvez tenha de praticar um pouco mais a minha tolerância...
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Uma resposta para A Troca

  1. Noiva disse:

    Eu gostei do filme…Só um detalhe: Christine é ajudada por um reverendo interpretado pelo sempre competente John Malkovich.O filme é bom tecnicamente: boa fotografia, direção de arte, reconstituição de época, figurino, maquiagem e trilha sonora. A direção segura de Eastwood produz uma excelente interpretação de Jolie e de todo o elenco, mas a protagonista se destaca muito; o elenco mirim também está ótimo.

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