Quanto vale ou é por quilo?

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Quanto Vale Ou É Por Quilo?

Um paralelo entre a vida no período da escravidão e a sociedade brasileira atual, focalizando as semelhanças no "comportamento mercadológico" das duas épocas.

Sinopse

Uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo marketing social, que forma uma solidariedade de fachada. No século XVII um capitão-do-mato captura um escrava fugitiva, que está grávida. Após entregá-la ao seu dono e receber sua recompensa, a escrava aborta o filho que espera. Nos dias atuais uma ONG implanta o projeto Informática na Periferia em uma comunidade carente. Arminda, que trabalha no projeto, descobre que os computadores comprados foram superfaturados e, por causa disto, precisa agora ser eliminada. Candinho, um jovem desempregado cuja esposa está grávida, torna-se matador de aluguel para conseguir dinheiro para sobreviver.

A história não mudou quase nada

 

É o que mostar o filme Quanto Vale ou é por quilo? de Sérgio Bianchi. A dinâmica do filme se dá em traçar um paralelo entre o período da escravidão e os dias atuais no Brasil, focalizando a crítica na preponderância econômica das relações: escravo = produto, no século XVIII e pobres = produto, nos dias atuais. Ontem, os senhores de escravos utilizavam as "mercadorias" como sub-produto de seus lucros, hoje, seriam na visão do autor, as instituições "assistencialistas" através da filantropia, o neo senhor no que diz respeito ao estancamento da autonomia da classe pobre no Brasil.

 

Foto retirada do site oficial do filme
O filme é uma livre adaptação do conto "Pai contra Mãe" de Machado de Assis, entremeado com pequenas crônicas de Nireu Cavalcanti sobre a escravidão, extraída dos autos do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e se passa em duas linhas temporais: no século XVIII com a escravidão explícita e o comércio de escravos e nos tempos atuais com a exclusão social e seu sinônimo velado.

A escravidão existiu por que os brancos realmente achavam os negros seres inferiores que só serviam para desempenhar as tarefas mais pesadas?

Não. A escravidão existiu porque também já existiam pessoas sem caráter e o dinheiro falava mais alto. Alguma diferença com os dias atuais? Pessoas sem caráter continuam existindo e aumentaram, na mesma proporção em que aumentou a população do Brasil. O dinheiro fala mais alto que nunca. Quem são os escravos de hoje? É só olhar ao redor, ou quem sabe no espelho.

Foto retirada do site oficial do filme 

O filme engloba questões raciais, marketing assistencialista, crime, violência, crítica cinematográfica e humor. Em cena Lazaro Ramos, Hérson Capri, Caco Ciocler, Ana Lúcia Torre, Silvio Guindane, Ana Carbatti, Myrian Pires, Lena Roque.

Um bom filme e super diferente. Realismo em cena embricado com ficção. Muito do que é tratado pode ser encarado como caminho para o entendimento do que acontece no Brasil, mas existe também uma caricaturização em excesso das ongs por parte do filme. Interessante conexão entre século XVIII e os dias atuais, em relação ao "apart-heid" e ao racismo camuflado existente no Brasil. Produção bancada pela Petrobras e pela Secretaria de Cultura do Rio.

Edoneidade, altruísmo, filantropia, assitencialismo, social e outras palavras são tratadas pejorativamente e inteligentemente, de forma que se conclui que as ONGs são um bando de mercenários e se utilizam da pobreza para seu próprio crescimento econômico.

Citação

"Quanto vale ou é por quilo?"

“….Esse é o nosso navio negreiro…”[1]

 

Tatiane Portilio Lemos 

    “…A minha violência está nos meus papéis…nos meus direitos…”[2]. Esta frase é dita logo na primeira cena do filme brasileiro “Quanto vale ou é por quilo?” de Sérgio Bianchi, sendo uma verdadeira bomba explícita, crua e real. Aliás, não é apenas uma “bomba”, mas uma “mina” terrestre, onde se ousa colocar os pés, os olhos e os sentidos, correndo os riscos propostos no filme. Riscos estes de acordar para a realidade.

    Neste artigo a proposta inicial será de tratar brevemente de uma das tantas questões levantadas por Bianchi: a questão racial dentro do processo histórico-social no Brasil.

Sendo que neste ponto, aborda-se também os tópicos relacionados com Direitos Humanos, onde o filme poderá servir em outros momentos como importante elemento desencadeador de reflexão a respeito das violações desses direitos na sociedade atual, e, em uma análise mais profunda, pensar sobre as possibilidades da violência e da criação de estereótipos, estéticas e paradigmas através dos meios de comunicação, da perpetuação de (pré)conceitos, das tradições cristalizadas, dos costumes, tanto nas percepções cotidianas, quanto na colocação de tais percepções dentro de um processo temporal e secular.

    Por ser uma obra cinematográfica o uso da linguagem é complexo, o que permite várias interpretações e conceituações de um mesmo ponto. Os inúmeros olhares que podem ser lançados ao filme direcionam ao debate e a posicionamentos críticos e relevantes para questões históricas importantes que muitas vezes concentram-se em embates teóricos e acadêmicos com poucas implicações práticas. O que Sérgio Bianchi consegue fazer é transformar a superficialidade do tratamento de pautas cruciais da sociedade brasileira em chocantes e fundadas cenas da vida, dos sonhos e da morte de um tempo revelador, e repetitivo, inovador e cíclico, ordenado e caótico, redentor e doente em si. Tal ambigüidade pode ser interpretada como uma dura e feroz crítica ao capitalismo, a democracia “faz de conta” e as grandes oligarquias que continuam a “reinar” em seus palácios feitos de materiais mais modernos e resistentes, de matérias menos abstratas, mais dolorosas.

    No que se refere à escravidão, o autor faz intensas provocações sobre o tema, onde sua principal tese está fundada na continuidade das tradições do escravismo moderno no Brasil. Sua analogia da temporalidade torna-se consistente quando mistura fatos reais e ficção, ou seja, ao mesmo tempo em que cria personagens para seu enredo, traz para a história elementos da vida real. Na construção narrativa alterna o formato institucional, de um filme mais tradicional, com o formato de documentário, o que dá credibilidade às suas intenções de mesclar elementos reais e fictícios, e abre as possibilidades críticas e de interpretação.

    Assim, quando fala de escravidão, não está se referindo apenas aos escravos que viviam em senzalas, em séculos longínquos, mas está visivelmente mostrando a escravidão atual, que é tão ou mais violenta, que retorna cruelmente e em ciclos lúgubres para os mesmos argumentos, que não se restringe ou limita apenas nos aspectos físicos, mas também, morais, espirituais, generalizados. Contrariando ou impedindo que demonstrações do preconceito, da discriminação e da exclusão se tornem menores ou enfraquecidos no meio social.

    Está no artigo 6º da Convenção Americana sobre Direitos Humanos(Pacto de San José da Costa Rica, 1969): “1. Ninguém pode ser submetido à escravidão, e tanto estas como o tráfico de escravos e o tráfico de mulheres são proibidos em todas as suas formas.”. Porém, atualmente, sabe-se que esse artigo não passa, muitas vezes, em muitos casos de letras soltas em papel. Observando a realidade, há de se questionar as concepções de “escravo”, de “servidão”, de “trabalho escravo” e ainda, de como as leis que existem podem ser efetivadas e colaborar para na busca da dignidade humana.

    Como na visão dos donos proprietários de escravos dos séculos XVII E XVIII, por exemplo, hoje, em alguns momentos,  a conceituação de humano é deveras ultrajante, pois, por mais que se possa disfarçar ou forjar cordialidades e aceitação, muitas pessoas são tratadas como objetos, muitas pessoas se transformam em objetos e muitas pessoas são objetos, de maneiras diferentes, mas todas são escravas de algo ou de alguém.

    Como Sérgio Bianchi explicita em “Quanto vale ou é por quilo?”, a figura do capitão-do-mato, por exemplo, apenas mudou suas roupas, apenas mudou a época, porque a sua “função” na sociedade continua a mesma, a sua situação não mudou, muito menos o seu “patrão”, que conta com a sua eficácia para fazer o serviço “sujo”, manter a sua ordem e defender a sua propriedade.

    A demonstração do uso da metalinguagem está nesse ponto, onde tal concepção do personagem como capitão-do-mato é retirado de um conto de Machado de Assis, “Pai contra Mãe”, que trata das questões raciais e morais na sociedade carioca ao final do século XIX, início do XX. Isso porque Machado de Assis era um crítico de sua época, de sua sociedade, como também a consciência aberta e original de suas “raízes”  e descendência.

    O conto remonta “lembranças”, “trechos” de um processo que não se extinguiu, mas sim apenas mudou sua face, utilizando máscaras, disfarces, fantasias de um modo de ser e de viver, e por isso continua atual e pertinente, podendo ser usado como fio condutor, utilizado no início e no final do filme.

    Outra questão importante é a análise da constituição das relações sociais no Brasil, que  traz elementos que aguçam a percepção de que os traços mais genuínos e substanciais da escravidão permanecem até hoje.

    A questão moral que está representada neste conto reflete a fragilidade dos princípios seguidos na sociedade escravista, sendo muito bem utilizada por Sérgio Bianchi, pois o “ciclo” que está estabelecido de certa maneira inocenta aqueles que estão subjugados (escravos, capitão do mato, desempregados, “marginais”, etc) aos “culpados” e sem moral (elite agrária, oligarquias, donos de escravos, empresários, políticos), sendo uma crítica incisiva às instituições e suas sistemáticas.

    Mesmo ações mais drásticas e graves parecem não ter tal dimensão, pois a consciência da realidade sórdida em que tais indivíduos vivem – e onde sobrevivem – não justifica, mas os redime de seus próprios atos.

    Outras ligações interessantes que Bianchi consegue estabelecer estão nas questões históricas relacionadas à escravidão e propriedade, colocando em suas cenas histórias verídicas retiradas do Arquivo Nacional no Rio de Janeiro, que tratam dos direitos distorcidos e de leis que privilegiavam aqueles que desfrutavam de vantagens econômicas, o que de certa forma comandava a hierarquia moral e legal na época, e que, de outras maneiras, com outros artifícios, duram até a atualidade.

    Na relação escravo/propriedade, as leis consideravam o escravo como um bem, sendo que visto como propriedade o mesmo não possuía direitos como cidadão, considerado um objeto, um imóvel, até mesmo um ser irracional. As leis imperiais, especificamente a primeira Constituição de 25 de março de 1824 garantia o direito de propriedade “em toda a sua plenitude”, ou seja, em relação ao escravo africano, dava aos seus senhores poderes incondicionais.

    Apesar de constar nos instrumentos legais, a propriedade, bem como, a desapropriação voltadas para a construção, prédios ou edificações, de acordo com os interesses do Império e de seus administradores, as proposições das leis se mostravam flexíveis e até um tanto contraditórias. A partir de 1855, identifica-se o início das discussões em torno das desapropriações e até  mesmo sobre o conceito de propriedade. Tal questionamento feito por José Thomas de Nabuco abre espaço para o debate sobre os interesses imperiais sobre as leis, atendendo a favorecimentos e ditando “boa vontade”,  demonstrada em alguns casos de desapropriação e indenização (citando o Rio Grande do Sul). A mesma boa vontade demonstrada nos discursos em prol da sociedade igualitária e da solidariedade utilizado por políticos, empresários e outros interessados em fazer do “altruísmo um prato mais saboroso” como coloca Sérgio Bianchi.

    Na relação escravo africano/crime, as leis não citavam especificamente o escravo, o que leva a crer que o “julgamento” ou punição ficava a cargo do proprietário. As leis ignoravam a condição de pessoa do escravo (propriedade), que não possuía aparatos legais para sua defesa, ou para receber um julgamento de acordo com os critérios de justiça.

    Sendo que tal condicionamento se liga a questão do escravo ser uma propriedade. Portanto, a justiça jamais teria o sentido da imparcialidade ou da “igualdade” perante bens. Os senhores, encarregavam-se de castigar e punir seus escravos, trazendo literalmente a lembrança de fazer justiça com as próprias mãos, tendo as leis e a sociedade como participantes, e de certo modo, legitimadoras de seus atos.

    Assim, considerando a constituição histórica e social, nas considerações em relação aos Diretos Humanos, nota-se que de um lado estão os aparatos legais e do outro as violações. Pode-se pensar que, ao mesmo tempo em que as questões de racismo estão bem servidas no que diz respeito à legislação, percebe-se que o cotidiano de privações e exclusão também está estabelecido. Certas noções que perpetuam atitudes e idéias racistas estão presentes na sociedade, sendo que não é apenas a criação de leis que irá mudar esse quadro, mas sim as mudanças de postura e significação da realidade e de conceitos, que são profundas, longas e necessárias.

    Tratando, portanto, aqui, de uma breve análise do filme, das questões raciais e das violações de direitos tais como a liberdade e a vida, pretende-se um retorno a tais questionamentos, visando a possibilidade de maiores reflexões e críticas, que possam, de uma maneira ou de outra, colaborar para a busca de propostas e caminhos para os grandes problemas do mundo atual, considerando a reflexão baseada na “construção” de processos históricos um viés para a discussão dos Direitos Humanos.    

Esse artigo foi feito para a disciplina de Mecanismos e Instrumentos Internacionais II do Curso de Especialização em Direitos Humanos do Instituto Superior de Filosofia Berthier – IFIBE – Passo Fundo.  


[1] Fala do personagem de Lázaro Ramos no filme “Quanto vale ou é por quilo?”

[2] Fala da personagem de Zezé Motta – Joana – no filme “Quanto vale ou é por quilo?”


*As informações sobre o filme "Quanto Vale Ou É Por Quilo?" retirei do site http://www.quantovaleoueporquilo.com.br/ através de pesquisa na internet.

*A citação "Quanto vale ou é por quilo" retirei do spaces http://tatiledgirl.spaces.live.com/ através de pesquisa na internet.

*As imagens ilustrativas deste post e mais algumas informações complementares a respeito do filme de Sérgio Bianchi retirei do blogspot http://minhasfabulosidades.blogspot.com/2007/11/quanto-vale-ou-por-quilo_21.html através de pesquisa na internet.

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Sobre luablejf

Sou uma pessoa calma e bastante tímida. Não costumo sair muito e por isso vivo na internet. Sou bem eclética em questões referentes a preferências... adoro ler, ouvir música, dançar e tomar umas biritas de vez em quando... mas o que eu adoro mesmo é DORMIR e BEIJAR!!! Meu hobbie é DORMIR. Me interesso por coisas variadas, gosto tanto de coisas simples quanto de coisas rebuscadas. "O Amor conquista-se com Amor e não impondo regras." (A.D.) E talvez tenha de praticar um pouco mais a minha tolerância...
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2 respostas para Quanto vale ou é por quilo?

  1. Gabriela disse:

    Estamos de endereço novo: http://gabyecatarina.blogspot.com
    Venha nos visitar
     
    Bjos, Gaby e Catarina

  2. Williams disse:

    Vi o filme e vi que muitas coisas continua atemporal, mas eu gostaria de saber o ano apresentado.

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